segunda-feira, 15 de junho de 2009

Medo Líquido

Embora incapazes de darmos uma trégua às nossas suspeitas, parar de farejar traições e temer a frustração, buscamos - compulsiva e apaixonadamente - "redes" mais amplas de amigos e amizades. Na verdade, a rede mais ampla que pudermos comprimir no painel do telefone celular, o qual, benevolentemente, aumenta em capacidade a cada nova geração de aparelhos. E quando tentamos cercar nossas apostas contra a traição e dessa forma reduzir os riscos e montarmos o palco para novas traições. Já que nenhuma cesta é totalmente segura, tentamos colocar os ovos em todas que pudermos encontrar.

Preferimos investir nossas esperanças em "redes" em vez de parcerias (...) Esperamos compensar a falta de qualidade com a quantidade (a probabilidade de ganhar na loteria é minúscula, mas quem sabe um conjunto de probabilidades miseráveis possa constituir uma chance mais decente?) (...) Os rastros deixados por essa busca por segurança parecem, contudo, um cemitério de esperanças destruídas e expectativas frustradas, e o caminho à frente está salpicado de relacionamentos frágeis e superficiais. O chão não está mais firme à medida que caminhamos; parece mais lodoso e inadequado para nos assentarmos sobre ele. Estimula os caminhantes a correr, e os corredores a aumentar a velocidade.

As parcerias não se fortalecem, os medos não se dissipam (...) Os habitantes do mundo líquido-moderno, acostumados a praticar a arte da vida líquido-moderna, tendem a considerar a fuga do problema como uma aposta melhor do que enfrentá-lo.

Zygmunt Bauman (tomei a liberdade de modificar algumas palavras)
em Medo Líquido

Nenhum comentário:

Postar um comentário